Francisco, por, com certeza, lapso de memória esqueceste-te de duas coisas.
Primeiro, não é a mesma coisa ser dono duma empresa privada e gerir uma empresa pública. Uma empresa privada é dos donos, uma empresa pública não é do Governo e muito menos propriedade de quem conjunturalmente tem um dado pelouro. Mais a mais, como bem sabes, os órgãos de comunicação social têm um estatuto especial, independência editorial e tudo o mais que também conheces perfeitamente. Mas como não andamos propriamente a dormir sabemos que nas empresas privadas, digamos, outros valores se levantam...
No sector público a coisa muda de figura. A lei prescreve de forma clara a sua independência e atribui-lhe grande importância (não vamos discutir se está certo ou errado). Ora, sabendo que o Governo não é dono da RDP ou da RTP e que deve zelar por essa independência não entendo o que queres dizer com não se poder dizer mal do dono. Será que defendes que nos espaços de opinião de órgãos de comunicação do Estado não se pode dar uma opinião livre? Ou que seja livre desde que não se diga mal do governo?
Segundo, I got news for you: nem a RTP nem a RDP vão ser privatizadas. A RTP vai apenas vender um canal e a RDP nem isso. Será que defendes que estas estações devem ser uma espécie de porta voz dos governos? Estou certo que não.
Bem sei, a realidade tem sido essa. De facto, todos os Governos, uns mais outros menos, têm tratado os órgãos de comunicação social do Estado, e não só, como se fossem donos deles. Mas a questão é se estamos dispostos a aceitar isso, se passamos a achar normal que alguém seja despedido duma rádio ou televisão pública por delito de opinião.
Quanto aos privados, deixa-me dar-te a minha opinião e a minha experiência pessoal. Nunca me senti constrangido, nem pressionado. Já disse coisas desagradáveis sobre as empresas que me pagam e nunca me disseram nada, mas aceitaria que me dispensassem se achassem que eu ia contra o que elas pensam ser os seus interesses. Faz parte do jogo. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, e quem vende a sua opinião a uma empresa que se guia pelo critério do lucro está sujeito a isso. Por outro lado, ou valemos pelo que dizemos ou escrevemos, ou nunca passaremos de fantoches, bonecos que as pessoas já sabem o que vão dizer. Mas isso já é outra história.