Futebol não é desporto, é peregrinação. É culto clubístico, não ópera. É território de amor e ódio, não um passatempo de domingo à tarde, cheio de bons sentimentos primaveris. É bifana e não bife, é imperial e não vinho, é escárnio, maldizer e não uma mesa bem posta com toalha de linho branco. Futebol é choro nas derrotas do nosso clube e êxtase nas derrotas do nosso rival. É crença em dias melhores e tristeza que nos cala quando passamos por uma época como esta. Sou completamente racional em tudo na vida, menos na bola. Com a bola. A ver a bola. Aliás, para memória futura aqui vos digo: eu nem gosto de bola. Só gosto do Sporting e em particular que o clube do outro lado da rua perca sempre. São duas faces da mesma moeda. Duas almas gémeas. Separá-las é tirar futebol ao meu futebol. Até consigo dizer que os outros jogam melhor, apontar-lhes grandes jogadores, conceder a sua dimensão. Não me peçam é mais do que isto. Jamais lhes darei os parabéns pelo que quer que seja ou desejar-lhes boa sorte num jogo internacional. Recuso-me a ver jogos na televisão entre eles, quanto mais ir à bola com um deles. Não tenho peças de roupa daquela cor e abandonei o leite parmalat no dia em que o resolveram estampar nas camisolas. Está já em curso a mudança de operador de electricidade e, evidentemente, sou alérgico a sagres. Sou mais feliz quando perdem, quando choram e quando andam calados. No dia em que me tirem esta rivalidade tiram-me um dos lados bons da vida: o meu futebol.
Ao mesmo tempo que EUA e Rússia apostam em novo roteiro político para gerir a guerra civil síria, o primeiro-ministro turco foi a Washington dizer duas coisas: primeira, que há uma crise humanitária no território turco provocada pelo fluxo de refugiados cada vez mais incontrolável (quase meio milhão); segunda, que o apoio financeiro americano aos refugiados e a uma fação da oposição a Assad já não é suficiente. O resultado é, para a Turquia, duplo: por um lado, um risco de insegurança no seu território por via dos refugiados e pela circulação incontrolável de jihadistas; por outro, uma vitória de Assad que leve a retaliações futuras à Turquia (com ajuda do Irão e do Hezbollah), por via do apoio a parte da oposição síria.
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Bem sei que estás com uma cabeça do tamanho da barriga do Barbas, mas deixa o dr. Totti fora disto porque ele está para lá do futebol. De qualquer forma, vejo que conseguiste resumir tudo num título: sempre são 35 capelas e não 35 pontos aquilo que distingue os nossos clubes.
No Capela, no party.
Olha, eu na NBC (aqui). Embora o thanks do meu título fosse mais pela vitória contra o comunismo.
A"Europa" continua fraturante na política inglesa. Ao contrário do que acontece na maioria das capitais da UE, os termos da relação entre Londres e Bruxelas motivam quedas de governo (Wilson, Thatcher, Major), rebeliões (a Maastricht Rebellion contra Major, p.ex.) e cisões partidárias (a origem do SDP de Jenkins, vindo do Labour), início de recuperações eleitorais (Labour nas europeias de 1989), transformações programáticas (do Old para o New Labour), ou até na influência direta que Blair teve ao lançar Barroso para a presidência da atual Comissão Europeia. Ou seja, há muito que a "Europa" é factor preponderante na política inglesa. O que Cameron tem feito é dar um passo em frente: de preponderante a decisivo.
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Sobretudo, e isto também interessa a Portugal, porque a retirada da NATO do Afeganistão vai dever parte do sucesso e dos custos ao apoio e segurança que o Governo paquistanês garantirá até ao porto de Carachi. Estamos a falar em custos previstos de retirada na ordem dos 5,5 mil milhões de dólares: a saída feita pela Ásia Central será muito mais cara e demorada do que pelo Paquistão. O Paquistão é a fronteira oriental da Aliança Atlântica. Razão mais do que suficiente para que os decisores ocidentais olhem para o que lá se passa com outra seriedade.
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O peso da França depende da sobrevivência da UE, tal como o do Reino Unido depende da manutenção da NATO. Dos grandes da UE, só a Alemanha tem uma estratégia pensada e autónoma à implosão das duas instituições berço da Europa pós-45 e 89: chama-se aliança com a Rússia. É esta autonomia estratégica que lhe permite actuar na UE mais ou menos como entende, sabendo que essa ligação lhe garantirá no futuro o peso e a influência que a sua dimensão pede no quadro das grandes potências internacionais.
Ainda bem que é irrepetível. O outro momento fundador chama-se reunificação alemã e só agora estamos a perceber o seu verdadeiro impacto. Ou seja, o que estamos a presenciar é outra ideia de UE porque o seu momento fundador é distinto do primeiro. E é distinto para o bem e para o mal.
O momento fundador de uma certa ideia de UE foi a destruição provocada pela II Guerra Mundial. Como escreveu Tony Judt em meados dos anos 90, isso é irrepetível.
A UE deixou de ser um projecto europeu para ser um mecanismo de regulação dos equilíbrios regionais com a preponderância da Alemanha.
A crise da Zona Euro devia ser o mote para preparar politicamente a UE para a restante Europa. A sua maior dimensão não é nem financeira nem económica: é política. Quem olhar para o dia seguinte tem hoje condições para decidir melhor.
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Para Londres e Paris a solução política esgotou-se, mas para Washington e Moscovo, não. O receio de que as armas cheguem ao círculo da Al-Qaeda leva a que Kerry e Lavrov proponham uma conferencia internacional que coloque na agenda um roteiro de transição que, previsivelmente, inclua gente pró e anti-Assad, um calendário de cessar-fogo e a presença de uma força de "manutenção da paz" sob chapéu da ONU. Será agenda de sucesso? Ninguém sabe. Mais evidente é que Londres, para contornar a ausência de força no centro político e financeiro da UE, quer projetar poder e estatuto pela defesa; e Paris, fiel à posição eurocentral, procura duplamente equilibrar o peso da Alemanha: pela agenda económica (inconsistente) e pelo voluntarismo na segurança (persistente). Há tradições na Europa que se mantêm.
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Foi o terceiro ataque de Israel no território sírio este ano. Mas a destruição de instalações militares nos arredores de Damasco tinha outro alvo que não Assad: mísseis iranianos fornecidos ao Hezbollah. O ataque não foi à Síria, foi ao Irão por interposta entidade. Na semana em que os EUA vacilam sobre o rumo a dar à guerra civil síria, Israel diz a Teerão e a Beirute que não admite guerras de sombras contra si.
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Miguel Monjardino escreve neste último Expresso sobre a consolidação da ultrapassagem a Lisboa feita por Washington. Quem fica a ganhar é Espanha. No texto do Miguel há a referência a um dos argumentos centrais no meu livro, "A Cimeira das Lajes", vincando a dinâmica ibérica que esteve por trás de todo esse processo. Mas se há dez anos essa desvalorização de Lisboa foi, de certa maneira, congelada pelo apoio de Barroso à guerra, hoje Portugal parece ter poucos argumentos para cativar a atenção americana. Sugiro um para a próxima década: a costa ocidental africana, os dilemas de segurança do golfo da Guiné, a emergência do Brasil e Angola enquanto valorização do Atlântico Sul no interior da NATO. Quanto mais esta região for relevante para a Aliança (e para a UE), mais argumentos tem Portugal para afirmar a sua relevância, conhecimento e influência. Caso contrário, o fosso para Madrid vai continuar.
E se é assim neste fim de vida, que acontecerá depois do seu desaparecimento? Uma apropriação faciosa do legado? A ruína apressada da memória unificadora? Mandela foi um político extraordinário, cuja vida merece que o país o respeite e se respeite. Zuma, esse, não passará de uma nota no rodapé da história.
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Por isto a decisão em Washington é tremendamente difícil: seguir o imperativo moral clintoniano influente em muitos sectores democratas (Dennis Ross, Anne Marie Slaughter, Susan Rice) ou manter o rumo Obama: refazer a América em casa (Richard Haass fala disso em Foreign Policy Begins at Home), aplicar recursos e capital político no Pacífico, atuar em conflitos de forma criteriosa (drones) fugindo de longas guerras, permanências caras e resultados desastrosos. Este não é apenas o dilema de Obama: é a dúvida que acompanhará os EUA nos próximos anos.
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Ontem, no CCB, foi assim. Com muito preto e pouca luz, a nossa maior voz impôs-se com naturalidade no meio das guitarras, sem grandes conversas mas com muita alma. Num certo sentido, Camané é o nosso Johnny Cash.
O que leva um povo a dar maioria absoluta a quem governou nos doze anos que antecederam a hecatombe de 2007/2008? Porque foi penalizada a esquerda (sociais-democratas e verdes) que governou o país nos últimos quatro anos, com média de crescimento em 2,5%, desemprego estabilizado nos 5% e com parte significativa do empréstimo do FMI saldada? A política parece ter razões que a razão desconhece. Mas a direita que vence é a que há oitenta anos governa a Islândia. O corpo estranho na gestão do país é a esquerda e, ao que parece, os islandeses não simpatizam com ela, nem mesmo com uma eficaz gestão da crise financeira.
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Depois de ter feito estágio na democracia-cristã, Enrico Letta percorreu o caminho muito em voga na idade adulta: engrossou as fileiras do socialismo (Portugal dá cursos intensivos nesta matéria). Parece que esta é a grande vantagem de Letta: conhecer os meandros de todos os partidos depois de os ter frequentado.
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Podem não ter resolvido os dramas da Guiné-Bissau, mas têm tudo para ser o princípio do fim da sua podridão sistémica: a detenção e acusação norte-americanas dos narcotraficantes Na Tchuto e Indjai, este último estratega do golpe de 2012 e homem forte da cadeia militar.
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Podemos, então, concluir que os autores do ataque em Boston fazem parte de uma jihad internacional com origem no Cáucaso? Para já, não. É aqui que a minha última análise ao ataque de Boston falhou. Arrisquei uma ausência de radicalização islâmica nos autores e esta, ao que parece, existia. Contudo, posso não ter estado longe de duas dinâmicas. Uma, quando não atribuí à Al-Qaeda a autoria do ataque. Mantenho o que disse: podemos estar perante um caso de simples autonomia do planeamento e execução do atentado, o que nos conduz a uma fase deste tipo de terrorismo mais complexa de monitorizar.
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Tirando os EUA e o Panamá, todos os restantes membros da Organização de Estados Americanos, a mais representativa do continente, reconheceram a vitória de Maduro. Que nos diz isto? Primeiro, que os EUA, mesmo que a razão lhes assista ao temporizar o reconhecimento, não têm uma estratégia para a América Latina capaz de envolver e influenciar uma maioria significativa de Estados. Ao contrário do que se diz, os EUA têm hoje menos peso na América Latina do que no passado.
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Embora sequencial e em ambiente mediático, arrisco dizer que este atentado terrorista não tem a marca da Al-Qaeda nem de franchisados que atuam com o seu selo. Por exemplo, não foi feito por bombistas suicidas que causariam certamente a devastação sonhada, e também não foi reivindicado, característica habitual de quem procura difundir mensagem global rápida e efusiva. A questão é: são lobos solitários ou temos alcateia?
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Maduro pode legitimamente ter ganho estas eleições, mas se está seguro disso não pode iniciar seis anos de mandato envolto em suspeita por metade dos eleitores. A recontagem, confirmando os resultados, seria a melhor forma de gerir a ascensão popular de Capriles por bom tempo. Porque há duas coisas que Maduro não se pode esquecer: metade do país não o quer e a outra tem hoje mais saudades de Chávez do que ontem.
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Quando um candidato a líder de uma nação com a importância da Venezuela diz que Chávez teve dedo na eleição do Papa, que lhe apareceu em forma de um pajarito chiquitito e que quer montar gabinete junto aos seus restos mortais, entramos num filme de animação de baixo custo, estupidificante para os eleitores. Maduro pode vencer com facilidade esta eleição, mas não significa que ganhe o país, lhe dê coesão e maturidade. Maduro, só mesmo o apelido.
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Sobre o narcotráfico na Guiné-Bissau (Entrevista à DW).
A prova de que o chavismo tem vida curta sem Chávez está na obsessiva linguagem usada por Nicolas Maduro sobre o "eterno comandante". Só quem tem a autoconfiança em baixo é que precisa de recorrer a defuntos. Aquilo que Chávez tinha em habilidade e manha política tem Maduro em fragilidade e falta de carisma. Não fosse o estado de comoção do eleitorado e tenho dúvidas de que, em condições normais, Maduro conseguisse a vantagem que as sondagens lhe dão sobre Caprilles. Esta é a primeira grande condicionante da campanha: o fator emocional canalizado em Maduro.
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Depois de vencer um concurso de poesia, a professora de Margaret Thatcher disse-lhe que ela "era uma sortuda". Com dez anos, "Maggy" respondeu-lhe: "Não foi sorte, mereci ganhá-lo." Não é pela poesia que recordo a senhora Thatcher, é pela obstinação em fazer da liberdade individual um programa político e um fim inegociável interna e externamente.
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