Domingo, 27 de Dezembro de 2009

 

Desde já o confesso: José Tolentino Mendonça não é apenas poeta. É um criador de conversas. A nossa, entre o jazz de fundo e o cheiro a café tão do agrado de dois apaixonados pela cidade eterna, fluiu como seria de esperar. Não há um engasgo. Uma palavra fora do sítio. É um privilégio para quem o ouve.
 
A sua ainda curta obra poética serviu de pretexto para este reencontro. E ainda bem que assim foi. Da inigualável Assírio & Alvim, “Baldios” (1999) é melancolia, memória, gosto pelo silêncio. Dá-se início a uma musicalidade do pormenor que ofusca o explícito. Porque as palavras em excesso tornam não só os ambientes pesados como contraem as sensações. E poesia é sobretudo sensações. Um afinar de sensações, diria.
 
“De igual para igual” (2001) traz-nos Deus nas entrelinhas. José Tolentino Mendonça, homem da Igreja, não se sente à vontade com o pregão literário, preferindo a transparência da sua condição humana envolta numa fé entre palavras. Confidenciou-nos mesmo preferir que a interpretação individual do leitor seja feita através de sinónimos de Deus. Certamente uma forma bem mais magnânima de o fazer ouvir.
 
E este é um dos aspectos curiosos da sua poesia: o “despojamento” factual da sua condição de padre em detrimento da forma alternativa de comunicar, quer a fé, quer qualquer tipo de silêncios ou banalidades quotidianas. Roma vai surgindo naturalmente, porque é impossível fugir-lhe. Por se ter tornado viva demais para o poeta.
 
Assume que Eugénio de Andrade, T.S. Eliot e Pavese estão entre as suas devoções. Mas também Sophia, Cesariny, Herberto Hélder, Jorge Luís Borges ou Fernandes Jorge. Porque é ao longo das leituras e da identificação da palavra que nos tornamos capazes de acalentar e transmitir algum tipo de expressão escrita. Talento, inspiração e trabalho. Lamento mas não conheço outra fórmula.
 
 
Em “A Estrada Branca” (2005), Tolentino Mendonça “ganha” novo mundo. A ambiência cosmopolita da “nossa” cidade eterna tem necessariamente reflexos na projecção de conteúdos urbanos, sejam de carácter material ou no domínio do relacionamento humano. Porque “Roma só me trouxe felicidade”, diz-me calmo, mas emocionado. Mas este seu último livro tem, além disso, Deus explicitamente referido, o que o distingue dos anteriores. Pergunto-lhe: Terá sido inevitável a “pressão” católica italiana na construção de imagens poéticas? Revela-me que não se tratou de qualquer inevitabilidade, mas sim de uma condição permanente que alberga em si e que amiúde se revela, desta ou daquela forma. Talvez “A Estrada Branca” demonstre precisamente isto: a total simbiose entre urbanidade e espiritualidade. Concordamos que uma não exclui a outra e a poesia pode precisamente ser a bissectriz desse encontro. Que se leia mais poesia, pois então! Obrigado pela palavra certa.
 
...
 
A propósito de Tolentino Mendonça, recupero esta crónica publicada na Atlântico, em Setembro de 2006, após uma conversa num qualquer café do Chiado com o padre-poeta. Conhecemo-nos em Roma há uns sete anos atrás. Tenho por ele a maior das admirações.  


publicado por Bernardo Pires de Lima às 18:12 | link do post

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