Quinta-feira, 29 de Março de 2012

Não me dou mal com o meu país. Portugal não me tem tratado mal, verdade seja dita. Não é que sejamos propriamente amigos muito chegados, não me esqueço da forma como ele tem tratado a maioria esmagadora dos meus irmãos de berço. Gente que lhe dedica um amor assolapado, uma paixão irracional. Cidadãos capazes de dar a vida por uma ideia que nunca se cumpriu e, mais do que certamente, nunca se cumprirá. Homens e mulheres que fugiram da miséria para terras onde puderam matar a fome aos filhos e se reúnem em cafés de lugares longínquos, que os tratam como nunca Portugal os tratou, a beber umas Sagres e a comer uns pastéis de bacalhau a suspirar por um pedaço de céu lisboeta, uma courela minhota ou a morrer de angústia por não verem a imensidão da planície alentejana. Pois é, não sou como aqueles tipos que dizem que um bandido qualquer é um porreiro porque o estupor uma vez lhes emprestou cinco tostões para comprar pão: “Bem sei que o Costa é um pulha mas a mim nunca me fez mal”. Para esse peditório não dou.

Seja como for, nunca me apeteceu emigrar. De qualquer maneira serei sempre português mesmo que fuja daqui para fora, que me esqueça da minha língua, que o espaço que ocupamos desapareça no oceano ou que um chinês qualquer leve o bacalhau, os pastéis de nata, o Pessoa e o futebol para a província de Heilongjiang (não procure, existe mesmo).

Tenho reparado, porém, que andam para aí uns rapazes com dúvidas sobre qual é de facto a sua nacionalidade, e vai daí resolveram espetar na lapela umas bandeirinhas com as cores pátrias. Estes cidadãos levantam-se de manhã, tomam banho, digo eu,  e enquanto se esfregam, perguntam-se: “De onde é que eu serei?” Carregados de dúvidas, começam-se a vestir e vêm o pin verde e vermelho: “Oh pá, é verdade, sou português. Deixa-me cá pôr isto para ver se não me esqueço”. Será assim como um tipo que veste todos os dias uma camisa com um arco-íris para se recordar que é gay ou põe um papelinho no anel para não se esquecer de respirar ou um post it na carteira para que não se lhe varra que é do Sporting. O que é assim a atirar para o estranho, já que estes desmemoriados seres são todos ministros ou responsáveis governamentais ou estatais. Posso estar enganado, mas na minha ingenuidade tinha para mim que eram exactamente estes cavalheiros que nunca deviam ter dúvidas acerca de para quem trabalhavam.

Claro que posso estar a ser injusto. Às tantas, como somos um bocado distraídos, querem que não existam dúvidas que somos governados por portugueses e não por Alemães ou Liberianos. Há que dizer que se for essa a razão compreendo.

Também pode ser moda. Bem sabemos como às vezes aparecem modas cretinas, o que vale é que passam depressa.

 

Publicado na edição da Life de 29 de Março



publicado por Pedro Marques Lopes às 11:41 | link do post | comentar

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